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Sopro

Sopro

2014

 Sobral, Leonor, Sopro, Edições Esgotadas,2014, 85p.ISBN 978 989 880 1029

No princípio era a poesia...

O leitor tem diante de si um pequeno livro de poemas de extensão e medidas curtas intitulado SOPRO. Identifica facilmente a sua estrutura: o sujeito da enunciação, o " eu", o seu interlocutor, o "tu"e a natureza onde foi buscar a principal imagética.

Com a superioridade que lhe é inerente no acto da enunciação, o "eu" não se limita a nomear. Como um profeta interpela o "tu", as suas hesitações, as suas ambiguidades: "Que sabes de ti /amotinado, (...), "Ignorante dos lugares, ousas rasgar caminhos", "Não será melhor/ tentares quebrar os muros?". Sendo ficção a homologia permite-lhe, numa ilusão bem medida, criar laços de um relacionamento amoroso, que o leitor, também criador tem de procurar descobrir abrindo o armário das metáforas: "Assm como o arqueiro recua/ antes de disparar as flechas/ em silêncio refazes / o teu íntimo movimento/ e continuas o trabalho....", Despes os vestidos/ na casa/ que por ti measmo/ se mantém sempre aberta". Não deixa de usar o bisturi crítico na denúncia de injustiças: o astro-rei é só para alguns. "Na obra que a carne veste/ está a morte/ a última. / Em Chernobil // "E no azul uma enorme indiferênça".

De realçar, a tentativa bem conseguida de nos mostrar a face poética de três grandes poetas: Alberto Caeeiro, Álvaro de Campos e Eugénio de Andrade. A intertextualidade que sempre existe porque um texto é sempre um intertexto, é de louvar. A referência à bíblia e a Frei João dos Santos evidencia ainda a vertente da espiritualidade que percorre diversos poemas.

A natureza é esse oceano imenso, inesgotável, onde a autora, como um garimpeiro, encontra o ouro das suas imagens, natureza que conhece bem, demonstando a sua formação académica. A presença de lexemas do campo lexical de árvores (hipernónimo e hipónimos) é avassaladora, seguindo-se-lhe, em doses amplas, o das aves.

Em suma, o leitor é convidado a ler devagar, a reler, no sentido de descobrir sentidos que sempre se embrenham na linguagem poética. Como disse Ruy Belo "É esse, hoje e sempre, o encanto da poesia.

João Guerra (professor e escritor)




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